50 anos depois, o álbum “Young, Gifted and Black” de Aretha Franklin ensina que o amor desperta a alma

Foto: Flickr/Domínio Público

23 Fevereiro 2022

 

“O amor desperta a alma. O amor coloca a alma de volta no corpo. A música também. Vamos nos afastar de nós mesmos, vamos para algum lugar distante e nos apaixonarmos”, escreve a jornalista Ray Levy Uyeda, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 19-02-2022. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

 

Eis o artigo.

 

 

 

O que nós sabemos: todo álbum pode ser lido como um álbum de amor. Todo álbum inclui músicas que descrevem uma proximidade ao amor ou uma aproximação aquilo que parece ser amor (e são sempre aproximações).

 

O que nós sabemos: “Young, Gifted and Black” é um álbum de amor. E completa 50 anos em 2022. Aretha Franklin, que morreu em 2018, gravou isso entre os casamentos com Ted White e Glynn Turman. Ela foi casada com cada um por menos de 10 anos.

 

O que nós não sabemos: A quem as canções de amor foram escritas (“All the king's horses / And all the king's men / Couldn't put our two hearts together again”).

 

O que nós sabemos: quando o álbum foi lançado em 1972, Aretha Franklin tinha 30 anos. Ela era filha de um pastor batista chamado C.L. Franklin e sua mãe deixara a família quando Aretha era criança e morreu antes que esta completasse 10 anos. C.L Franklin era amigo de Martin Luther King Jr., Sam Cooke e Mahalia Jackson. Quando era apenas uma criança, Aretha Franklin deu à luz seu primeiro filho aos 12 anos. Dois anos depois, ela gravou seu primeiro álbum de canções gospel. Os anos se passaram e ela trabalhou para passar do gospel ao pop e ao soul, embora a igreja e a crença sagrada estejam em toda parte em sua voz. Quando “Young, Gifted and Black” foi lançado em 1972, Franklin havia lançado 21 álbuns, incluindo gravações de shows ao vivo.

 

As músicas que ela escreveu para o álbum não são suas canções de amor mais poderosas. “First Snow in Kokomo” é sobre a mudança das estações, possivelmente uma metáfora para as estações de nossas vidas, a contínua flexão de uma estação para outra. “All The King's Horses” enterra um romance. A letra emprestada da história infantil Humpty Dumpty, que diz que o destino de nossas vidas é decidido não pelo que queremos para nós mesmos, mas pelo que nossos corpos predeterminam. O interesse amoroso de Aretha Franklin não está presente em “Day Dreaming”; é a imagem dele que ela canta, o que eles fariam juntos, o que ela se comprometeria com ele para tirá-lo do plano da imaginação. “Rock Steady”, que segue imediatamente “Day Dreaming”, levanta meu humor.

 

Também: eu ainda estou esses dias. Estou afetada pela pandemia. Estou desconectada desconfiada e desagregada, sinto-me em muitos lugares. Estou querendo, e estou querendo o amor que precede a esperança.

 

E Mahalia Jackson disse: “Toda a família queria amor”.

 

O que não sabemos: como é o desejo de amor? O que você vai aceitar em vez de amor? Você aceitará suas aproximações?

 

E, como dizer eu te amo, sem dizer que te amo. Diga: Vai ficar tudo bem, tudo isso, sem banalidade. Diga: Estou com medo, sem afundar na mortalidade. Diga: Eu quero comunidade e justiça, e eles estão tentando me tirar de mim mesmo. Diga: música. Diga: Este corpo tem um sentimento. Diga: Vai dar tudo certo. Tão certo quanto qualquer coisa em um país pode ser.

 

A música-título, “(To Be) Young, Gifted and Black”, é de Nina Simone, que a escreveu e gravou em 1969. As palavras pertencem a Lorraine Hansberry, que em 1964, disse a um grupo de jovens estudantes que ganharam um concurso de redação, “Eu queria poder vir aqui e falar com vocês nesta ocasião porque vocês são jovens, talentosos e negros”.

 

 

Simone disse aos alunos do Morehouse College: “Lembro-me de sentir meu corpo e disse: ‘É isso: ser jovem, talentoso e negro. Isso é tudo’. E sentei-me ao piano e compus uma melodia. Simplesmente fluía de mim”. Era música para “fazer as crianças negras de todo o mundo se sentirem bem consigo mesmas, para sempre”.

 

É um dom ser negro. É um dom inerente.

 

Imagino que todas as canções de amor já escritas são uma letra de uma canção de amor gigante, incompleta e incompletável. Há uma corrente invisível que liga as palavras de Franklin à de Simone, à de Hansberry, às pessoas que assistiram pela primeira vez “A Raisin In the Sun” na Broadway, aos filhos daqueles que estavam na plateia e às canções de amor aprendidas na escola daquelas crianças.

 

Como é que a gratidão de uma mulher se torna a canção de outra mulher, e alguns anos depois, Franklin transforma palavras faladas em uma balada. Como é que, quando repetidas, as palavras constroem significado em vez de se tornarem difusas dele? Como é que as palavras podem ter uma alma?

 

As palavras que não são ditas também têm alma. Estes são mais sinistros. Essas palavras têm um gosto amargo na língua.

 

O músico Billy Preston disse uma vez sobre Aretha Franklin: “Em qualquer noite, quando aquela senhora se sentar ao piano e colocar seu corpo e alma em uma música justa, ela vai te assustar pra cacete”. Ser tocado por sua música é ser lembrado de sua própria humanidade.

 

Onde dorme a alma? O que desperta a alma de seu sono profundo? Quando a tristeza e a dormência se enterram em meus ossos, a voz de Aretha Franklin me puxa para fora de mim mesma. Puxa minha alma que é.

 

Na maioria dos dias, nos movemos pelo mundo em um espaço liminar. Nós, transeuntes. Mente viva, corpo entorpecido. Não estar vivo em um corpo em movimento é como viver com um fantasma. E quando esse fantasma é você, você percebe que é possível ter estado no mundo sem olhar para ele. Você entende como é que o aprisionamento em um corpo que respira não é análogo a viver, mesmo quando viver em um corpo requer respiração.

 

Você pode desaparecer de si mesmo sem nem perceber.

 

O que sabemos: “Day dreamin' and I'm thinkin' of you Day dreamin' and I'm thinkin' of you Day dreamin' and I'm thinkin' of you Day dreamin' and I'm thinkin' of you” (“O dia sonhando e eu estou pensando em você”).

 

O amor desperta a alma. O amor coloca a alma de volta no corpo. A música também.

 

Vamos nos afastar de nós mesmos, vamos para algum lugar distante e nos apaixonarmos.

 

 

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